Da globalização à disputa
pelos chips: como Taiwan e a inteligência artificial estão transformando a
economia mundial
Durante décadas, a
expansão do livre comércio foi uma das principais características da economia
mundial. Empresas passaram a produzir componentes em diferentes países,
governos reduziram barreiras comerciais e enormes cadeias globais de produção
foram construídas em busca de menores custos e maior eficiência.
Nos últimos anos,
porém, esse cenário começou a mudar.
Questões como
segurança nacional, dependência tecnológica, produção de semicondutores e
inteligência artificial passaram a influenciar cada vez mais as decisões
econômicas dos governos. Nesse novo contexto, Estados Unidos, China, Taiwan,
Coreia do Sul, Japão e países europeus ocupam posições estratégicas em uma
disputa que vai muito além do comércio tradicional.
No centro dessa
transformação estão alguns dos produtos mais complexos e importantes da
economia contemporânea: os semicondutores.
Do livre comércio à segurança econômica
A estrutura
moderna do comércio internacional começou a ganhar forma depois da Segunda
Guerra Mundial. O objetivo era evitar o retorno das fortes disputas comerciais
e do protecionismo que marcaram parte da primeira metade do século XX.
Em 1947 surgiu o Acordo
Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), que buscava diminuir barreiras
comerciais. Décadas depois, em 1995, foi criada a Organização Mundial do
Comércio (OMC), ampliando as regras internacionais para áreas como serviços
e propriedade intelectual.
A globalização
avançou rapidamente.
Empresas passaram
a dividir suas cadeias produtivas entre diversos países. Um produto poderia ser
projetado nos Estados Unidos, utilizar materiais japoneses, ser fabricado em
Taiwan e depois vendido para consumidores em dezenas de mercados.
Entretanto, as
dificuldades das negociações multilaterais e as disputas entre grandes
economias mostraram os limites desse sistema.
A própria OMC
enfrenta dificuldades importantes em seu mecanismo de solução de controvérsias.
Seu Órgão de Apelação continua sem condições de analisar recursos devido à
falta de membros. Isso não significa, porém, que a OMC tenha deixado de
funcionar: painéis e outros mecanismos continuam sendo utilizados pelos países.
A entrada da China na OMC mudou a economia mundial
Um dos
acontecimentos mais importantes desse período ocorreu em 2001, quando a
China ingressou na Organização Mundial do Comércio.
A integração
chinesa às cadeias globais de produção aumentou significativamente a presença
do país na indústria mundial.
A enorme
capacidade industrial chinesa, combinada à expansão das exportações e aos
investimentos realizados pelo Estado, contribuiu para transformar a geografia
da produção mundial.
Esse processo
também provocou impactos importantes sobre determinadas regiões industriais de
outros países. Na literatura econômica, parte dessas transformações recebeu o
nome de “China Shock”.
Ao mesmo tempo, a
China deixou gradualmente de ocupar apenas o papel de grande produtora de
mercadorias de menor valor agregado.
O país ampliou
seus investimentos em setores como telecomunicações, veículos elétricos,
baterias, energia renovável, inteligência artificial e semicondutores.
A competição
econômica passou, portanto, a envolver não apenas quem consegue produzir
mais barato, mas também quem controla as tecnologias consideradas
estratégicas.
Estados Unidos e China: o retorno das tarifas
As tensões
comerciais entre Estados Unidos e China cresceram principalmente a partir de
2018.
Naquele ano, o
governo dos Estados Unidos utilizou a Seção 301 do Trade Act de 1974
para aplicar tarifas adicionais sobre produtos chineses. A medida foi justificada
pelo governo norte-americano a partir de sua investigação sobre transferência
de tecnologia, propriedade intelectual e determinadas práticas econômicas
chinesas.
Inicialmente,
tarifas adicionais de 25% foram aplicadas sobre aproximadamente US$ 50 bilhões
em importações chinesas consideradas tecnologicamente relevantes. Outras listas
de produtos foram incorporadas posteriormente. Essas justificativas representam
as conclusões oficiais apresentadas pelo governo dos Estados Unidos naquele
período e foram contestadas pela China.
A importância
desse episódio vai além das próprias tarifas.
Ele demonstrou que
a relação econômica entre as duas maiores potências passou a ser interpretada
também sob uma perspectiva de segurança nacional e competição tecnológica.
A política
industrial voltou a ocupar espaço central.
Em vez de depender
exclusivamente do mercado internacional para determinados produtos, diferentes
governos passaram a incentivar a fabricação doméstica de componentes
considerados essenciais.
E poucos componentes
são atualmente tão estratégicos quanto os chips.
Por que os semicondutores são tão importantes?
Semicondutores
estão presentes em praticamente toda a economia digital.
Eles são
utilizados em:
smartphones,
computadores, automóveis, servidores, equipamentos industriais, sistemas
militares, data centers e equipamentos de inteligência artificial.
A produção desses
componentes, entretanto, é extremamente complexa.
Nenhum país domina
sozinho todas as etapas necessárias.
Os Estados Unidos
possuem empresas importantes no desenvolvimento e projeto de chips. O Japão
ocupa posições estratégicas na produção de determinados materiais. A Coreia do
Sul possui grande importância na fabricação de memórias.
A empresa
holandesa ASML, por sua vez, tornou-se essencial por produzir sistemas
extremamente sofisticados de litografia utilizados na fabricação dos
semicondutores mais avançados.
Mas existe outro
território fundamental nessa cadeia: Taiwan.
Taiwan e o chamado “Escudo de Silício”
Taiwan ocupa uma
posição excepcional na indústria mundial de semicondutores.
É nesse território
que está localizada a TSMC — Taiwan Semiconductor Manufacturing Company,
uma das empresas mais importantes da economia tecnológica mundial.
A TSMC utiliza o
modelo conhecido como pure-play foundry: em vez de competir
principalmente desenvolvendo seus próprios processadores, ela fabrica chips
projetados por outras empresas.
Isso permitiu que
companhias de tecnologia utilizassem as fábricas taiwanesas para transformar
projetos digitais extremamente sofisticados em componentes físicos.
A dimensão dessa
concentração fica mais clara quando observamos os chips avançados.
Dados citados pela
Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos mostram que, em 2019,
Taiwan concentrava cerca de 92% da capacidade mundial de fabricação de chips
lógicos abaixo de 10 nanômetros. É importante observar que o percentual se
refere especificamente a esse segmento e à capacidade existente naquele
período, e não a todos os semicondutores produzidos atualmente.
Essa dependência
tecnológica contribuiu para o surgimento da expressão “Escudo de Silício”.
A ideia é que a
importância econômica da indústria taiwanesa de chips aumenta o interesse das
grandes potências na estabilidade das cadeias produtivas existentes na ilha.
Entretanto, essa
mesma concentração representa uma vulnerabilidade.
Problemas
logísticos, conflitos, bloqueios comerciais ou interrupções na produção
poderiam afetar diversas indústrias em diferentes partes do planeta.
A tentativa de reduzir a dependência de Taiwan
Estados Unidos e
outros países passaram a incentivar a instalação de novas fábricas de
semicondutores em seus territórios.
Um dos principais
exemplos é a expansão da própria TSMC nos Estados Unidos.
Em março de 2025,
a empresa anunciou a intenção de elevar para US$ 165 bilhões seu
investimento total em fabricação avançada de semicondutores no país.
O plano inclui
novas fábricas de chips, instalações de encapsulamento avançado e um centro de
pesquisa e desenvolvimento.
Essas iniciativas
ilustram uma transformação mais ampla.
As empresas
continuam buscando eficiência e lucro, mas os governos também passaram a
considerar fatores como resiliência das cadeias produtivas, capacidade
industrial interna e autonomia tecnológica.
A inteligência artificial tornou os chips ainda
mais estratégicos
A rápida evolução
da inteligência artificial aumentou ainda mais a importância dos
semicondutores.
Treinar grandes
modelos de inteligência artificial exige enorme capacidade computacional.
Data centers
utilizam milhares de aceleradores e processadores especializados funcionando
simultaneamente. Produzir esses equipamentos depende justamente das tecnologias
mais avançadas de fabricação e encapsulamento de semicondutores.
Por isso, a
disputa pela liderança em IA não ocorre apenas no desenvolvimento de programas
e algoritmos.
Existe uma
infraestrutura física por trás da inteligência artificial.
Ela envolve
fábricas, máquinas de litografia, materiais ultrapuros, energia elétrica, data
centers, sistemas de refrigeração e enormes investimentos.
Nesse cenário, chips
e inteligência artificial passaram a fazer parte de uma mesma disputa
tecnológica.
A globalização está acabando?
Não
necessariamente.
As cadeias globais
continuam fundamentais para a economia mundial. Nenhuma das grandes potências
consegue produzir internamente todos os equipamentos, materiais e tecnologias
necessários para sustentar setores tão complexos.
O que está mudando
é a lógica utilizada para organizar essas cadeias.
Durante parte da
expansão da globalização, a prioridade estava concentrada principalmente na
redução de custos e no aumento da eficiência.
Atualmente, outros
fatores ganharam importância:
segurança
econômica, localização das fábricas, diversificação de fornecedores, proteção
tecnológica e capacidade industrial nacional.
Expressões como friend-shoring
também passaram a aparecer com maior frequência. O conceito descreve
estratégias nas quais governos e empresas procuram concentrar determinadas
cadeias produtivas em países considerados parceiros ou politicamente mais
próximos.
Isso não significa
o desaparecimento do comércio internacional.
Significa que geografia,
tecnologia e geopolítica voltaram a ocupar um espaço central nas decisões
econômicas.
Uma nova geografia da tecnologia
A corrida pelos
semicondutores mostra como a economia digital continua profundamente ligada ao
território.
A inteligência
artificial pode parecer algo essencialmente virtual, mas sua existência depende
de uma enorme estrutura física.
Existem minas
responsáveis pelos minerais, indústrias químicas que produzem materiais
ultrapuros, fábricas de equipamentos extremamente sofisticados, enormes
instalações de semicondutores e data centers espalhados pelo mundo.
Controlar essas
etapas significa ocupar posições estratégicas dentro da economia global.
Por isso, Taiwan,
Estados Unidos, China, Japão, Coreia do Sul e países europeus estão diretamente
ligados a uma das principais transformações geoeconômicas do século XXI.
O que esperar dos próximos anos?
A tendência
apresentada por esse cenário é de uma economia mundial na qual comércio e
tecnologia continuarão profundamente conectados à segurança econômica.
Os semicondutores
são um exemplo particularmente importante porque sustentam grande parte das
tecnologias utilizadas atualmente.
Com a expansão da
inteligência artificial, sua importância tende a permanecer elevada.
Ao mesmo tempo, a
tentativa de distribuir novas fábricas entre diferentes países poderá modificar
gradualmente a atual geografia da indústria de chips.
Ainda assim,
construir uma cadeia de semicondutores não é simples.
São necessários
décadas de conhecimento acumulado, investimentos bilionários, mão de obra
altamente especializada e integração entre empresas localizadas em diferentes
países.
Por isso, mesmo
com políticas de incentivo à produção doméstica, a interdependência
internacional continuará sendo uma característica importante dessa indústria.
Conclusão
A economia mundial
está passando por uma transformação significativa.
A busca pela
eficiência e pelo livre comércio não desapareceu, mas passou a dividir espaço
com preocupações relacionadas à segurança econômica, à política industrial e à
soberania tecnológica.
A ascensão da
China, as mudanças na política comercial dos Estados Unidos, a importância
estratégica de Taiwan e o crescimento acelerado da inteligência artificial
fazem parte de um mesmo processo.
Os chips estão no
centro dessa transformação.
Mais do que
componentes eletrônicos, os semicondutores se tornaram peças essenciais para
compreender a nova geografia do poder econômico e tecnológico mundial.
Em uma economia
cada vez mais digital, compreender onde os chips são projetados, fabricados e
utilizados ajuda também a compreender como o poder está sendo reorganizado no
século XXI.
Suporte Geográfico
Artigo elaborado a
partir de pesquisa bibliográfica e documental sobre comércio internacional,
geopolítica dos semicondutores e inteligência artificial.


Comentários
Postar um comentário