Oceania
diante da elevação do nível do mar: adaptação, soberania e resiliência costeira
Poucas regiões do mundo demonstram de maneira tão clara os impactos das
mudanças climáticas quanto as pequenas nações insulares da Oceania.
Países como Kiribati e Tuvalu possuem grande parte de seus
territórios a poucos metros acima do nível do mar. Por isso, a elevação dos
oceanos, o aumento da erosão costeira, a salinização das reservas de água doce
e a intensificação de eventos extremos representam desafios diretos para a
segurança das populações.
Entretanto, o problema não envolve apenas o risco de algumas ilhas
perderem áreas habitáveis.
A crise climática também coloca em discussão questões muito mais amplas:
quem continuará tendo direito sobre as águas ao redor dessas ilhas? Um país
pode manter sua soberania se parte de seu território se tornar inabitável? A
migração deve ser tratada como solução inevitável? E até que ponto manguezais e
recifes podem ajudar a proteger as comunidades costeiras?
É nesse encontro entre clima, geografia e política que a situação da
Oceania ganha importância global.
Por que o nível do mar está
aumentando?
A elevação do nível médio dos oceanos está relacionada principalmente a
dois grandes processos associados ao aquecimento global.
O primeiro é a expansão térmica da água.
Quando o oceano absorve calor, a água aumenta de volume. Como os mares
cobrem a maior parte da superfície terrestre, pequenas variações de temperatura
podem produzir efeitos importantes quando consideradas em escala planetária.
O segundo processo é o derretimento de massas de gelo localizadas sobre
os continentes.
Geleiras e grandes mantos de gelo, principalmente na Groenlândia e na
Antártida, liberam água para os oceanos quando perdem massa.
Os oceanos também possuem enorme capacidade de armazenar calor. Isso
significa que parte dos impactos atuais continuará se manifestando durante
décadas, mesmo com reduções futuras nas emissões de gases de efeito estufa.
Por esse motivo, o debate climático envolve duas frentes diferentes, mas
complementares: mitigação, que procura reduzir as causas do aquecimento,
e adaptação, que prepara as sociedades para impactos que já estão
ocorrendo ou que se tornaram difíceis de evitar.
O problema vai além do avanço da
água
Quando pensamos na elevação do nível do mar, a imagem mais comum é a de
uma praia sendo lentamente inundada.
Na realidade, os impactos são muito mais complexos.
O avanço do oceano pode aumentar a erosão costeira, permitir a entrada
de água salgada nos aquíferos subterrâneos, prejudicar a agricultura e ampliar
a frequência de inundações durante marés altas ou tempestades.
Nas pequenas ilhas do Pacífico, esses problemas podem atingir
rapidamente uma grande parcela da população.
Além disso, o aquecimento e a acidificação dos oceanos ameaçam
ecossistemas que naturalmente ajudam a proteger a costa.
É o caso dos recifes de coral.
Quando os corais permanecem submetidos a temperaturas anormalmente
elevadas, podem expulsar as algas microscópicas com as quais mantêm relações
simbióticas. Esse processo provoca o chamado branqueamento dos corais.
Se o estresse térmico persistir, parte das colônias pode morrer.
A degradação dos recifes também reduz sua capacidade de funcionar como
barreiras naturais contra as ondas.
Assim, a perda de um ecossistema pode produzir consequências diretas
sobre as comunidades humanas.
Kiribati: território pequeno,
oceano imenso
Kiribati é um dos exemplos mais conhecidos dessa vulnerabilidade.
O país possui 32 atóis e ilhas coralinas de baixa altitude, além da
ilha elevada de Banaba, espalhados por uma enorme área do Pacífico.
Essa configuração produz um contraste geográfico interessante: Kiribati
possui uma área terrestre reduzida, mas está relacionado a uma gigantesca
extensão marítima.
Grande parte das ilhas habitadas apresenta altitudes muito baixas.
Em South Tarawa, principal concentração populacional do país, o
adensamento urbano aumenta ainda mais os desafios.
Habitações, estradas e outras infraestruturas estão instaladas em faixas
estreitas de terra, enquanto o crescimento populacional amplia a pressão sobre
água potável, saneamento e áreas disponíveis para construção.
Nesse contexto, a elevação do nível do mar não precisa cobrir
completamente uma ilha para torná-la problemática.
A salinização dos poços, a erosão, as inundações frequentes e a perda de
áreas agrícolas podem comprometer a habitabilidade muito antes de uma eventual
submersão.
“Migração com dignidade”
Durante o governo do ex-presidente Anote Tong, Kiribati ganhou destaque
internacional com a estratégia conhecida como “migration with dignity”,
ou “migração com dignidade”.
A proposta foi muitas vezes interpretada como um plano para abandonar o
país.
Mas a ideia era mais complexa.
Ela buscava ampliar a educação e a qualificação profissional dos
cidadãos para que, caso a mobilidade internacional se tornasse cada vez mais
necessária, essas pessoas pudessem migrar voluntariamente em melhores
condições.
Portanto, não se tratava simplesmente de transformar toda a população em
refugiados climáticos.
Era uma tentativa de preparar famílias para diferentes cenários futuros.
Em 2014, Kiribati também adquiriu aproximadamente 5.500 acres de
terras em Fiji.
A compra recebeu enorme atenção internacional e foi frequentemente
apresentada como uma possível área de reassentamento.
Entretanto, sua justificativa oficial esteve principalmente ligada à segurança
alimentar, incluindo a possibilidade de produção agrícola para abastecer
Kiribati.
O caso mostra como as mudanças climáticas podem influenciar decisões
territoriais mesmo antes que uma área seja diretamente perdida para o mar.
Tuvalu e a recusa da ideia de
“país condenado”
Tuvalu enfrenta desafios semelhantes.
Com uma população pequena e território formado por ilhas de baixa
altitude, o país tornou-se um dos principais símbolos internacionais da ameaça
representada pela elevação dos oceanos.
Mas existe um problema nessa representação.
Quando Tuvalu é descrito apenas como um país que “vai desaparecer”, a
discussão pode ignorar a capacidade de decisão de sua própria população.
O governo tuvaluano tem insistido que a prioridade deve ser manter as
ilhas habitáveis pelo maior tempo possível.
Isso significa investir em proteção costeira, segurança hídrica,
infraestrutura e adaptação territorial.
A posição também envolve uma questão política fundamental: o direito de
permanecer.
Para muitas comunidades do Pacífico, território, cultura e identidade
estão profundamente conectados.
Migrar para outro país não significa apenas mudar de endereço.
Pode significar romper relações históricas com a terra, o mar, os
ancestrais e formas tradicionais de organização social.
Mobilidade não significa
necessariamente abandono
Isso não significa que Tuvalu rejeite qualquer forma de migração.
A mobilidade internacional já faz parte da vida de muitas famílias do
Pacífico.
Pessoas estudam, trabalham e vivem temporariamente em outros países,
enviando recursos para seus parentes e adquirindo novas qualificações.
O ponto central é que essa mobilidade deve ser voluntária e planejada,
e não apresentada como prova de que o país deixou de ter futuro.
Essa diferença ficou especialmente evidente no relacionamento entre
Tuvalu e Austrália.
Em 2023, os dois países assinaram o Tratado da União Falepili,
que entrou em vigor em 2024.
O acordo cria uma via de mobilidade para cidadãos tuvaluanos viverem,
estudarem e trabalharem na Austrália.
Ao mesmo tempo, reconhece algo extremamente importante: a
continuidade da estatalidade e da soberania de Tuvalu mesmo diante dos efeitos
da elevação do nível do mar.
O que acontece com um país quando
seu território muda?
Essa discussão leva a uma das questões jurídicas mais interessantes da
crise climática.
Tradicionalmente, os Estados são associados a elementos como território,
população e governo.
Mas o que acontece quando mudanças ambientais modificam profundamente a
base física de um território?
E, principalmente, o que ocorre com as áreas marítimas controladas por
esses países?
A questão é especialmente importante para as pequenas nações insulares.
Apesar de possuírem pouca terra, muitas controlam enormes Zonas
Econômicas Exclusivas, ou ZEEs.
Dentro dessas áreas, o Estado possui direitos específicos sobre recursos
naturais.
A pesca, por exemplo, possui grande importância econômica para diversos
países do Pacífico.
Perder direitos sobre essas águas poderia significar uma segunda perda
além da própria erosão territorial.
As fronteiras marítimas devem
acompanhar o avanço do mar?
Pelo Direito do Mar, a definição das áreas marítimas tradicionalmente
depende de linhas de base relacionadas à costa.
Surge então uma dúvida.
Se uma ilha sofrer erosão ou for parcialmente inundada, essas linhas
deveriam ser redesenhadas?
Os países do Pacífico têm defendido outra solução.
A posição regional é de que as zonas marítimas já estabelecidas devem
permanecer preservadas, mesmo que mudanças climáticas alterem fisicamente o
litoral.
Esse princípio é fundamental para países como Kiribati e Tuvalu.
A ideia é impedir que nações que contribuíram relativamente pouco para o
aquecimento global sejam obrigadas também a perder direitos jurídicos e
econômicos sobre vastas áreas oceânicas.
Mudanças climáticas e justiça
Esse debate está diretamente relacionado ao conceito de justiça
climática.
Os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento representam uma parcela
muito pequena das emissões históricas globais de gases de efeito estufa.
Mesmo assim, algumas dessas nações estão entre as mais vulneráveis às
consequências do aquecimento.
Essa desigualdade tornou-se um argumento importante nas negociações
internacionais sobre financiamento climático.
Os países do Pacífico defendem maior apoio financeiro e tecnológico para
construir infraestrutura, proteger ecossistemas e adaptar comunidades.
Também participam ativamente das discussões internacionais sobre perdas
e danos, voltadas aos impactos climáticos que não podem ser completamente
evitados por medidas tradicionais de adaptação.
Muros não são a única resposta
Uma das respostas mais intuitivas ao avanço do oceano é construir
estruturas físicas.
Muros costeiros, enrocamentos e outras obras de engenharia podem exercer
funções importantes.
Em determinados locais, elas podem ser essenciais para proteger áreas
densamente ocupadas.
Mas essas obras não resolvem todos os problemas.
Construções rígidas também podem modificar o transporte natural dos
sedimentos.
Em algumas situações, praias e manguezais ficam presos entre a elevação
do oceano e estruturas artificiais que impedem seu deslocamento em direção ao
interior.
Esse fenômeno é conhecido como coastal squeeze, ou compressão
costeira.
Por isso, a adaptação moderna procura combinar engenharia tradicional
com soluções que utilizam os próprios ecossistemas.
Manguezais como aliados contra os
desastres
Manguezais possuem enorme importância nessa estratégia.
Suas raízes diminuem a velocidade da água, acumulam sedimentos e ajudam
a reduzir parte da energia das ondas.
Além disso, esses ambientes fornecem abrigo e áreas de reprodução para
diversas espécies.
Para comunidades dependentes da pesca, essa função possui valor
econômico direto.
Os manguezais também armazenam grandes quantidades de carbono,
participando das estratégias conhecidas como carbono azul.
Quando a conservação de ecossistemas é utilizada deliberadamente para
reduzir riscos, temos uma abordagem chamada Redução de Riscos de Desastres
Baseada em Ecossistemas, ou Eco-DRR.
Ela parte da ideia de que a natureza pode funcionar como uma forma de
infraestrutura.
Vanuatu: quanto vale um
manguezal?
Estudos realizados em Vanuatu buscaram calcular economicamente os
serviços fornecidos por manguezais.
A análise considerou benefícios relacionados à pesca, proteção costeira,
turismo e armazenamento de carbono.
Os resultados mostraram valores de milhares de dólares por hectare ao
ano em determinadas áreas estudadas.
Esses números ajudam a modificar uma ideia antiga sobre conservação.
Um manguezal preservado não representa simplesmente uma área que deixou
de ser utilizada economicamente.
Ele próprio gera valor.
Isso significa que proteger a natureza pode ser também uma decisão
econômica.
Papua-Nova Guiné e a restauração
comunitária
Outro exemplo está em Papua-Nova Guiné.
O projeto MARSH — Mangrove Rehabilitation for Sustainably-Managed
Healthy Forests desenvolveu ações de recuperação de manguezais com
participação direta das comunidades locais.
Foram plantadas e manejadas mais de 13 mil mudas de mangue, além
da integração de ações ambientais a planos comunitários de gestão.
O projeto mostra uma característica fundamental das soluções baseadas em
ecossistemas.
Elas não dependem apenas de plantar árvores.
Para funcionar, precisam considerar a forma como as comunidades utilizam
a pesca, os recursos costeiros e o próprio território.
Adaptação climática também é planejamento social.
Natureza ou engenharia?
A resposta mais adequada provavelmente não será escolher apenas uma
delas.
Em áreas densamente ocupadas, estruturas de engenharia podem continuar
necessárias.
Em outras, manguezais, recifes e dunas podem fornecer proteção
importante.
Muitas regiões deverão utilizar soluções híbridas, combinando
infraestrutura convencional e natureza.
Também será necessário adaptar edifícios, melhorar o armazenamento de
água, alterar sistemas de drenagem e reconsiderar a ocupação de áreas
extremamente vulneráveis.
A complexidade das ilhas do Pacífico mostra que não existe uma única
estratégia capaz de resolver todos os problemas.
O direito de escolher o próprio
futuro
Talvez esse seja o ponto mais importante.
As populações de Kiribati, Tuvalu e outras nações do Pacífico não devem
ser vistas apenas como vítimas passivas das mudanças climáticas.
Essas sociedades estão desenvolvendo políticas, negociando tratados,
restaurando ecossistemas e discutindo novos conceitos de soberania.
A mobilidade internacional pode fazer parte dessas estratégias.
Mas também pode existir o direito de permanecer.
Essa escolha deve pertencer, antes de tudo, às próprias comunidades
afetadas.
Uma nova geografia criada pelas
mudanças climáticas
A elevação do nível do mar mostra que as mudanças climáticas também
podem modificar a geografia política.
Linhas costeiras podem recuar.
Territórios podem perder áreas habitáveis.
Recursos naturais podem tornar-se mais difíceis de utilizar.
E conceitos jurídicos construídos durante séculos podem precisar ser
reinterpretados.
Kiribati e Tuvalu estão na linha de frente dessas transformações.
Aquilo que hoje parece um problema distante de pequenas ilhas no
Pacífico pode antecipar debates que futuramente envolverão diversas regiões
costeiras do planeta.
Conclusão
A crise enfrentada pelas pequenas nações da Oceania não pode ser
reduzida à imagem de ilhas desaparecendo sob o oceano.
O verdadeiro problema envolve a combinação de elevação do nível do
mar, erosão costeira, acesso à água, perda de ecossistemas, mobilidade
populacional, soberania e direitos marítimos.
Kiribati e Tuvalu demonstram estratégias diferentes, mas compartilham
uma preocupação fundamental: preservar a capacidade de suas populações
decidirem sobre o próprio futuro.
Ao mesmo tempo, experiências com manguezais em Vanuatu e Papua-Nova
Guiné mostram que a própria natureza pode participar das respostas à crise
climática.
O futuro dessas ilhas dependerá da redução das emissões globais, do
financiamento internacional e da capacidade de combinar engenharia, conservação
e planejamento social.
Mas dependerá também de algo menos visível e igualmente importante: reconhecer
que adaptação climática não significa apenas proteger territórios, mas proteger
culturas, soberania e o direito das populações de continuar existindo como
comunidades e como nações.
Suporte Geográfico
Texto elaborado com base em pesquisa sobre mudanças
climáticas, elevação do nível do mar, resiliência costeira, soberania e
estratégias de adaptação nas pequenas nações insulares da Oceania.

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